Poesia no Presídio de São João da Ponte revela desejos de um futuro diferente

Trabalho voluntário de jornalista e escritor estimula nos detentos o gosto pela literatura, estimula a escrita e provoca reflexões

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As atividades acontecem uma vez por semana dentro da área carcerária
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Na contramão de qualquer plano de fuga que costuma habitar o pensamento de homens e mulheres presos, não importa a cidade ou país, os detentos do Presídio de São da Ponte, situado a 130 quilômetros de Montes Claros, no Norte de Minas, estão escrevendo poesias e pequenos textos libertadores. Saudades de um grande amor, arrependimento, mãe, pai e planos para uma vida bem distante de crimes são os temas recorrentes desses textos.

O responsável por essa transformação na vida dos detentos de São João da Ponte é o jornalista e escritor Gilmar Pereira, 35 anos, que voluntariamente desenvolve o projeto Poesia Além das Grades. As atividades acontecem uma vez por semana dentro da área carcerária, com a leitura de textos, declamação de poemas e até repentes acompanhados por violão.

Obras de poetas e cronistas brasileiros, além de algumas escritas por Gilmar, funcionam como inspiração para os presos soltarem a imaginação e também refletirem sobre a própria vida. Quase todos os 40 presos da unidade já escreveram textos em poesia ou prosa, que serão selecionados e reunidos em um livro. “Estou em busca de apoio e ajuda de amigos da cidade para concretizar este projeto. Queremos entregar um exemplar para cada um dos presos durante um sarau poético”, revela o jornalista e escritor.

A adesão dos presos ao projeto impressionou o diretor-geral da unidade, Warley Martins Cardoso Silva, tanto pela seriedade como pelos sentimentos expressados nos mais de 70 textos já entregues. “É um material de muita sensibilidade. Revela uma enorme vontade de estar novamente entre os familiares, a esposa e os filhos, e principalmente o desejo de buscar uma vida melhor quando tiverem a liberdade”, afirma.

Provocações

Palavras soltas, mas capazes de encher cada envelope vazio deixado nas celas com histórias de vida, imaginadas e sofridas, revelações da alma, tristezas e alegrias, mas acima de tudo esperança. Amor, tristeza, culpa, alegria e futuro são algumas das palavras que o voluntário Gilmar sugere como tema de escrita para os presos após o término de cada encontro literário.

Dentre grandes nomes da poesia brasileira, a leitura de obras de Manoel de Barros, o grande poeta do Pantanal, conseguiu reacender nos presos lembranças da infância e do contato com a natureza em pequenas cidades do interior.

Fábio de Sousa Lima, 28 anos, um dos 40 detentos do projeto conta do processo passado por ele no Poesia Além das Grades. “Fui tomado, inicialmente, por um sofrimento, mas depois veio o aprendizado e o alívio. Tive coragem e resolvi escrever minha biografia, está com 100 páginas e quero chegar a 200”, fala o detento.

A temática mais presente na produção literária dos presos é, sem dúvida, o amor de todo o tipo, seja pela ex-namorada, a mãe ou o filho. Erivelton Corrêa Lima, 21 anos, destaca o quanto tem sido importante escrever. “Cheguei a trocar cartas com um ex-amor, mas a distância e a minha prisão colocaram fim na relação. Já não escrevo cartas, mas o Projeto trouxe uma luz para a minha vida e agora penso e registro no caderno minhas saudades da família”. O caderno mencionado por Erivelton é uma oferta do Projeto, que foi dado para cada um dos detentos, acompanhados de lápis.

Rumos  

Na próxima semana será o último encontro de Gilmar com os presos de São João da Ponte. O voluntário espera conseguir verbas para a edição do livro e realizar o sarau, mas independente do que acontecer ele pretende voltar no final do ano para continuar com outros o projeto. “Digo para eles (presos) tornarem real o desejo de uma nova vida. Saírem do papel e seguirem novos rumos”, reforça entusiasmado.



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