Pronunciamento do governador Fernando Pimentel durante a solenidade de entrega do Relatório Final da Comissão da Verdade em Minas Gerais

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Eu vou dizer porque eu vou ser breve. Hoje, de fato, é um dia muito marcante para mim, muito emocionante. E, como a emoção costuma me embargar a voz, eu não posso falar muito para não correr esse risco. E porque é tão emocionante? Em primeiro lugar, por uma coisa singela e que passou despercebida para quem falou antes de mim. Nós estamos no mesmo Palácio que abrigou os golpistas de 1964. Dali saiu o golpe de 64 e, agora, tantos anos depois, recebe esse Palácio os resistentes da ditadura militar para esse ato simbólico. Quis a história, a vontade do povo e a graça de Deus que fosse eu o governador do Estado nesse momento. Para mim é muito emocionante, companheiros e companheiras, que eu possa fazer um desagravo público e histórico àqueles que resistiram com sua vida, com sua liberdade, com seu sofrimento físico, aos horrores da ditadura militar. Sou muito grato a essa trajetória que me colocou aqui e muito consciente do que ela representa, não para mim, pessoalmente, mas para todos nós. Principalmente nesse momento que vivemos, nesse tempo sombrio que o país atravessa, em que a própria democracia é questionada por brasileiros certamente equivocados mas que têm a sorte de poder bradar os seus gritos de guerra, antidemocráticos, em um regime em que eles não correm o risco de serem presos, assassinados, torturados por terem a sua opinião política. Contraria à nossa, mas como disse o Nilmário, é a democracia, mas nós respeitamos, embora não concordemos. Que sorte a deles que nós tenhamos lutado com todo o povo brasileiro, reconquistado a democracia e que, agora, eles possam bradar pela ditadura sem correr o risco de serem assassinados ou se tornarem desaparecidos políticos como tantos companheiros nossos.

Eu acho que, mais do que nunca, esse trabalho da Comissão da Verdade, que não vai terminar agora, como disse o Robson com muita propriedade, na verdade ele começa um novo capítulo. E o nosso compromisso com o que vocês fizeram fica registrado de público e, simbolicamente, como o Nilmário já anunciou aqui, nós vamos ter um local para fazer essa celebração. Porque o prédio do antigo DOPS vai ser o memorial da Resistência, e queremos fazer isso já no ano que vem, quando serão comemorados os 50 anos das Jornadas de 1968, que muitos aqui participaram, que muitos de nós aqui se mobilizaram e alguns até começaram a sua militância ali. Mas, nesse tempo sombrio que nós vivemos, eu acho que mais do que nunca nós precisamos resgatar os valores que estão quase perdidos, da solidariedade, da compaixão, da responsabilidade coletiva, pessoal, sobre a dor do outro, do nosso semelhante mais fraco, mais abandonado, mais desassistido, mais desamparado, mais necessitado. Essa solidariedade que, ás vezes, a gente vê meio submersa nesse mundo tão submetido à lógica do mercado, à lógica implacável do capital financeiro, como bem lembrou aqui o professor Robson Sávio. A banalidade com a que a gente vê hoje se degradarem os sentimentos mais nobres, ameaçando transformar os seres humanos em uma caricatura patética daquilo que a gente sempre lutou, que é por uma sociedade mais justa, mais fraterna.

As páginas desse relatório registram, sem dúvida nenhuma, de forma muito precisa, o sofrimento, os horrores da ditadura militar, horrores que sofreram brasileiros e brasileiras daqui de Minas Gerais e de outros Estados naquele período. Em sua maioria jovens, movidos pelo idealismo, pela dedicação ao povo e pela busca da justiça social, da liberdade, da igualdade de uma sociedade mais fraterna. Eu sempre penso, companheiros e companheiras, na nobreza desses nossos companheiros, homens e mulheres que deram a vida e, com seu exemplo, um pouco redimem a humanidade da crueldade que às vezes nos cerca. Eu acho que as mortes de tantos companheiros e companheiras, e aqui o registro que a comissão fez certamente vai espelhar isso, celebra o valor da vida e o sentido maior da vida, essa doação que cada um de nós, em certo momento, tem que fazer e faz pelo coletivo. Eu acho que, volto ao exemplo inicial, nós aqui nesse Palácio, que abrigou os golpistas de 64 e que se abre nesse momento simbólico da resistência democrática, de certa forma damos a demonstração de que ninguém interrompe a marcha da história. Ela é inexorável e ela aponta sem dúvida nenhuma para u futuro muito mais luminoso que esse passado registrado no trabalho da Comissão da Verdade. Eu não vou resistir e vou encerrar essa minha brevíssima fala com um verso que sempre me comove muito e é claramente dedicado aqueles mais jovens que tiveram a sorte de não viver aquele período que nós vivemos, estou vendo vários e várias, aqui. É um verso de Brecht, de um poema lindíssimo que chama: Aos que vão nascer. E diz mais ou menos assim: “Vós, que vireis na crista da maré em que nos afogamos, quando falardes de nossas fraquezas, pensai também no tempo sombrio a que escapastes”.  Que esses tempos não voltem mais e que o trabalho da Comissão da Verdade, tão bem conduzido pelos companheiros e companheiras que estão aqui, iluminem o caminho para que as sombras da ditadura nunca mais voltem ao nosso país. Que seja assim. Continuemos na luta.

Muito obrigado.